Guilherme Moura: “A tendência do mercado é migrar”

Guilherme Moura_foto Marcelle Faltesek

Foto: Marcelle Faltesek

É Domingo de Páscoa. Então, vamos falar de chocolate? Faz uma semana que conheci o empresário Guilherme Moura, da quinta geração de uma família de produtores de cacau que há seis meses está no mercado com o chocolate Costanegro.

Experimentei durante uma degustação promovida pelo Iberostate, em Praia do Forte. Gostei tanto do sabor quanto da história. O cacau vem de fazendas do Sul da Bahia (municípios de Camacan, Santa Luzia, Arataca, Mascote e Uruçuca), onde é cultivado sob o modelo cacau-cabruca, considerado o mais sustentável.

Na fábrica, localizada em Lauro de Freitas, são produzidos os chocolates Deleite (48% de cacau), Intenso (60%) e Absoluto (75%), em barras de 80g cujo preço pode variar de R$ 16 a R$ 19. Não, não é pra qualquer bolso.

“Trabalhamos com canais de distribuição especializados. A gente entende que não é para ser vendido em qualquer lugar. Definitivamente, não é um produto para o grande varejo”, reconhece o empresário, que atualmente preside a Câmara Setorial Nacional do Cacau.

Conversamos um pouco mais, veja aqui um pouco do rumo que tomou a prosa:

Qual o volume da produção?

Por enquanto, a gente tem uma produção de uma tonelada por mês. Mas a fábrica tem capacidade para duplicar. E ela já foi pensada para que, com adaptação de alguns equipamentos, eu consiga até quintuplicar a produção.

Você tem essas três variações do produto agora. Tem planos de expandir?

A gente está com uma produção praticamente restrita ainda à Bahia, com um ensaio no Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. A ideia, este ano, é expandir para o Brasil inteiro. E com isso a gente quer ampliar o mix. Tem um pouco de segredo aí, mas a gente quer trabalhar algumas características regionais. Coisas ligadas à cultura da região cacaueira, explorando produtos mais rústicos. A gente quer resgatar um pouco a maneira antiga de se fazer chocolate, de forma mais artesanal.

Com o que você trabalhava antes?

Minha família já trabalhava com cacau havia muito tempo. De formação, sou analista de sistemas e administrador de empresas. Trabalhei com varejo, era diretor comercial da Insinuante. Comecei minha vida profissional lá, depois migrei pros negócios da família. Isso foi há 13 anos. Mas só agora iniciei esse processo.

Como funciona o trabalho da Câmara Setorial Nacional do Cacau?

Estou presidente desde 2013. As câmaras são uma forma de o governo escutar a sociedade. É um canal de interlocução com o Ministério da Agricultura. A gente sugere política pública e pautas.

Qual é a tendência atual, no campo das políticas públicas?

Existe, primeiro, a questão da agregação de valor. A cadeia produtiva do cacau e do chocolate tem essa característica, você pode trabalhar nichos de mercado. Não precisa ser uma grande empresa para ter um produto como o nosso. Então a questão da verticalização é uma tendência. A segunda é a tentativa de mudar a legislação brasileira. No passado, para ser considerado chocolate, o produto tinha que ter 32% de cacau. Por um lobby das grandes indústrias, o percentual foi reduzido para 25%. E agora a gente quer aproximar nossa legislação da européia e da americana, voltando para os 35%. O Brasil é o terceiro maior mercado consumidor de chocolate do mundo. A gente não pode ter uma legislação tão flexível e, de alguma forma, tão atrasada, comparada com os grandes mercados.

E quanto tempo você acha que leva pra mudar a cultura do brasileiro em relação ao chocolate?

Sabe que tivemos uma surpresa? A gente tem somente seis meses de mercado. Quando fui montar o negócio, mandei rodar metade das embalagens do chocolate ao leite, que eu achava que ia sair mais. Você acredita que o que sai mais é o de 75%? No nicho de mercado que a gente trabalha, esse é o carro-chefe. Por isso eu acho que, num médio espaço de tempo, se fizermos um trabalho de conscientização e divulgação, a tendência do mercado é migrar. Por uma questão até de saúde. Todo mundo hoje está se preocupando mais com o que come e de onde vem.

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